Renascer no DNA
Amanda Fernandes
Amanda Fernandes
| 22-04-2026
Equipe de Astronomia · Equipe de Astronomia
Renascer no DNA
Quando Chai, uma gata da raça ragdoll, morreu de forma inesperada aos cinco anos, sua tutora, Kelly Anderson, ficou devastada.
Ela não queria simplesmente adotar outro animal — queria, de alguma forma, ter Chai de volta.
“Ela era minha alma gêmea”, relembra Anderson.
“Nunca tive um animal, nem mesmo uma pessoa, que me entendesse tão instintivamente. Senti que me roubaram o tempo com ela.”

Uma decisão impulsionada pela dor

Logo no dia seguinte, em 2017, Anderson iniciou o processo de clonagem com ajuda de um empréstimo pessoal. Na época, o procedimento custava cerca de US$ 25 mil (hoje, pode chegar a US$ 50 mil), mas ela conseguiu um desconto ao se tornar uma das primeiras clientes de uma empresa em expansão.
Ela transferiu amostras de DNA da gata, preservadas após a morte, e iniciou a jornada para criar uma nova versão de sua companheira. O caso passou a ser compartilhado por ela em um site e nas redes sociais.

Até que ponto um clone é o mesmo animal?

A história levanta uma questão central da ciência: um clone pode realmente ser igual ao original? O debate envolve genética e ambiente — a clássica discussão entre natureza e criação.
Embora milhares de tutores busquem a clonagem após perdas emocionais, pesquisadores ainda investigam como personalidade e comportamento se manifestam nesses animais.

O que a ciência já sabe

Estudos indicam que a clonagem pode reproduzir certas características físicas e comportamentais, mas não garante uma cópia exata da personalidade.
Traços como energia e sociabilidade podem ser semelhantes, já comportamentos ligados à aprendizagem e experiências de vida tendem a variar bastante.
Especialistas apontam que até clones criados em condições semelhantes não desenvolvem identidades idênticas. Fatores ambientais continuam sendo decisivos.
Para o professor James Serpell, da Universidade da Pensilvânia, a ideia de “recriar” um animal de estimação é limitada.
“Não é possível replicar totalmente um animal”, explica. “Muito do comportamento surge depois do nascimento. Mesmo gêmeos idênticos se tornam pessoas diferentes ao longo da vida.”

Como funciona a clonagem de pets

Desde o avanço da tecnologia após a ovelha Dolly, a clonagem animal evoluiu, mas ainda é complexa e cara. Hoje, o procedimento é mais comum entre pessoas com alto poder aquisitivo — incluindo celebridades.
O processo envolve a extração de óvulos, fertilização e implantação em uma fêmea receptora, que atua como barriga de aluguel. Mesmo assim, o sucesso não é garantido.
Segundo especialistas, muitos embriões não se desenvolvem corretamente, e a taxa de sucesso pode ser baixa. Em alguns casos, há complicações na gestação ou no nascimento.

Resultados ainda imprevisíveis

Estudos recentes mostram que clones podem ter temperamentos parecidos em alguns aspectos, mas não em outros. Em pesquisas com animais como porcos e cães, características como nível de atividade podem se repetir, enquanto traços como coragem e adaptação variam bastante.
Um estudo com cães clonados, por exemplo, mostrou que alguns comportamentos permanecem estáveis ao longo do tempo, especialmente os ligados à interação com humanos. Ainda assim, diferenças surgem conforme experiências de vida.
Renascer no DNA

Chai e sua “nova versão”

No caso de Anderson, o processo demorou anos. A gata clonada, chamada Belle, só chegou em 2021 — quatro anos após a decisão inicial.
Durante esse tempo, Anderson viveu o luto e passou a encarar a nova fase com menos expectativas de “recriar” Chai exatamente.
E as diferenças logo apareceram. Enquanto Chai era mais reservada, influenciada por uma socialização limitada quando filhote, Belle mostrou comportamento mais extrovertido e curioso desde cedo.
“Em termos de temperamento, elas são parecidas”, diz Anderson. “Mas Belle é mais independente e sociável.”

Um animal único, não uma cópia

Com o tempo, a própria tutora passou a concordar com o que os cientistas afirmam: clones não são renascimentos, mas novos indivíduos.
“Não é reencarnação”, conclui Anderson. “É como ter um gêmeo idêntico que nasceu em outro momento.”
Apesar do avanço tecnológico, a ciência ainda reforça uma conclusão clara: a personalidade de um animal não está apenas no DNA, mas na vida que ele vive.