Novo rincossauro
André Costa
André Costa
| 23-04-2026
Equipe de Animais · Equipe de Animais
Novo rincossauro

Uma descoberta que vem do passado profundo

A paleontologia brasileira acaba de ganhar um novo capítulo importante.
Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) na revista científica Royal Society Open Science descreve uma nova espécie de réptil pré-histórico a partir de um crânio com cerca de 230 milhões de anos.
O fóssil foi encontrado no município de Agudo, dentro do território do Geoparque Mundial da UNESCO Quarta Colônia, uma região já reconhecida por revelar alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos pela ciência.

Uma região rica em fósseis

O centro do Rio Grande do Sul é um verdadeiro tesouro para a paleontologia. Ao longo dos anos, a área tem revelado uma grande diversidade de animais pré-históricos, incluindo dinossauros primitivos e diversos répteis.
Entre os grupos mais comuns encontrados nesses sítios estão os rincossauros, répteis herbívoros de quatro patas que se destacavam por um bico forte e um sistema de mastigação bastante peculiar, formado por fileiras de dentes adaptados para triturar plantas.

A nova espécie identificada

O estudo apresenta o Isodapedon varzealis, uma nova espécie de rincossauro que apresenta semelhanças com espécies já conhecidas na Europa, mas com características próprias que chamaram a atenção dos pesquisadores.
A pesquisa começou como parte da dissertação de mestrado de Jeung Hee Schiefelbein, atualmente doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM, sob orientação do paleontólogo Rodrigo Temp Müller. Também participaram os doutorandos Maurício Silva Garcia e Mariana Doering.

O achado no campo e o trabalho em laboratório

O crânio foi escavado em 2020 em um sítio fossilífero de Agudo. Depois da coleta, o material foi levado ao Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa/UFSM), onde passou por um processo minucioso de preparação.
Para remover a rocha que envolvia o fóssil, os pesquisadores utilizaram ferramentas delicadas, como bisturis e agulhas, devido à fragilidade do material. Só após essa etapa foi possível analisar em detalhe as estruturas do crânio.
As análises revelaram características incomuns em relação a outros rincossauros conhecidos da mesma formação geológica, indicando que se tratava de uma espécie ainda não descrita pela ciência.
Novo rincossauro

Um crânio com características únicas

O fóssil preserva parte do crânio, incluindo maxilares e mandíbulas com uma morfologia diferenciada. Nos rincossauros, os dentes do maxilar geralmente formam duas ou mais estruturas em forma de “placas”, separadas por uma fenda e, em muitos casos, assimétricas.
No caso do Isodapedon varzealis, essas placas apresentam uma característica rara: são mais simétricas entre si. Foi justamente essa particularidade que ajudou a definir a nova espécie. O nome “Isodapedon” faz referência a “placas dentárias iguais”, enquanto “varzealis” remete à região da Várzea do Agudo, onde o fóssil foi encontrado.

Um herbívoro de “bico de papagaio”

Pelas estimativas, o animal teria entre 1,2 e 1,5 metro de comprimento. Como outros rincossauros, era um réptil herbívoro e quadrúpede.
Seu crânio, largo e triangular, possuía um bico pontiagudo que lembra o de um papagaio. Essa estrutura provavelmente ajudava tanto no corte de vegetação quanto na escavação do solo em busca de raízes e tubérculos.

O papel do animal no ecossistema antigo

Há cerca de 230 milhões de anos, o Isodapedon varzealis ocupava a posição de consumidor primário em seu ambiente. Ele provavelmente convivia com predadores maiores, incluindo répteis próximos dos ancestrais de crocodilos e jacarés, além dos primeiros dinossauros.
Como apenas um crânio da espécie foi encontrado até agora, ainda não é possível definir com precisão seu tamanho máximo. Mesmo assim, comparações com outros rincossauros sugerem que poderia chegar a até 3 metros de comprimento, o que o tornaria uma presa mais difícil para os carnívoros da época.