Perereca do paracatu
Fernanda Rocha
| 28-04-2026

· Equipe de Animais
Nova espécie descoberta no Cerrado
Uma nova espécie de anfíbio foi identificada no Cerrado brasileiro, ampliando o conhecimento científico sobre a biodiversidade do bioma.
Batizada de Ololygon paracatu, a perereca é endêmica da região e, até agora, só foi registrada em áreas de cabeceira que contribuem para a formação do Rio Paracatu, importante afluente do Rio São Francisco.
Características da espécie
A Ololygon paracatu é uma perereca de pequeno porte pertencente ao grupo Ololygon catharinae. Os machos medem entre 20,4 e 28,2 milímetros, enquanto as fêmeas variam de 29,3 a 35,2 milímetros.
A espécie se diferencia de outras próximas por um conjunto de características morfológicas, acústicas e genéticas, confirmadas em análises científicas detalhadas.
Importância para a biodiversidade
Essa é a oitava espécie do gênero registrada no Cerrado, um dos biomas mais ricos em biodiversidade da América do Sul e considerado um dos principais hotspots globais de espécies endêmicas.
Apesar de concentrar cerca de 5% da biodiversidade mundial, o Cerrado enfrenta altos índices de degradação, superiores aos de outros biomas brasileiros, o que aumenta o risco de extinção de espécies antes mesmo de serem conhecidas pela ciência.
Habitat restrito e sensível
A nova perereca foi encontrada apenas no noroeste de Minas Gerais, em duas localidades próximas no município de Paracatu.
Seu habitat é bastante específico: vive em matas de galeria associadas a córregos de águas rápidas e leitos rochosos, ambientes essenciais para o equilíbrio ecológico e a manutenção da biodiversidade local.
Origem do nome e descoberta
O nome da espécie faz referência ao Rio Paracatu, cujo termo de origem tupi-guarani significa “rio bom”.
A descoberta começou durante pesquisas de doutorado conduzidas pela pesquisadora Daniele Carvalho, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN/ICMBio). A investigação teve início ao analisar exemplares da Coleção Zoológica da Universidade Federal de Goiás (ZUFG), quando duas amostras chamaram atenção por diferenças sutis.
Confirmação científica da nova espécie
A suspeita levou a novas expedições de campo para localizar populações da perereca em seu ambiente natural.
Os indivíduos coletados passaram por análises morfológicas, genéticas e bioacústicas, que confirmaram se tratar de uma espécie até então desconhecida pela ciência.
O processo contou ainda com a participação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela autorização de coleta por meio do sistema Sisbio, etapa essencial para pesquisas de campo no Brasil.
Ameaças e preocupação ambiental
A Ololygon paracatu já enfrenta riscos significativos. Entre as principais ameaças estão a mineração, a degradação ambiental e o uso intensivo da água para a agricultura.
Esses fatores afetam diretamente os córregos e riachos onde a espécie vive, comprometendo também a integridade da bacia hidrográfica do Rio Paracatu.
Um alerta para o futuro do Cerrado
Segundo a pesquisadora Daniele Carvalho, preservar esses ambientes é fundamental não apenas para a sobrevivência da nova espécie, mas para todo o equilíbrio ecológico da região.
A escolha do nome também carrega um simbolismo: chamar atenção para a crise ambiental e hídrica do Cerrado. “Esperamos que esse nome ajude a chamar a atenção para a crise hídrica e ambiental que assola essa importante bacia hidrográfica e que ameaça não apenas os anfíbios, mas toda a sociedade”, afirmou a cientista.