Ciência Vira Negócio
Gustavo Rodrigues
Gustavo Rodrigues
| 06-05-2026
Equipe de Astronomia · Equipe de Astronomia
Ciência Vira Negócio

Da academia ao empreendedorismo

Uma ideia construída ao longo de anos de pesquisa pode ir muito além dos laboratórios. Com apoio de recursos públicos, ela pode se transformar em empresa, gerar empregos e trazer soluções tecnológicas para o mercado.
A trajetória da Selkis Biotech, sediada em Mato Grosso do Sul, mostra exatamente isso: como a ciência pode se converter em um negócio viável e inovador.

O nascimento da Selkis Biotech

A empresa foi uma das selecionadas pelo Programa Centelha 2 no estado e atua na produção de peptídeos sintéticos — moléculas formadas por cadeias de aminoácidos com aplicações em pesquisas biomédicas, vacinas e desenvolvimento de medicamentos.
Segundo o fundador, o pesquisador Ludovico Migliolo, a empresa surgiu a partir de uma ideia amadurecida ao longo da sua carreira acadêmica.
“Essa iniciativa nasceu enquanto eu me especializava na síntese de peptídeos e publicava artigos científicos. Trata-se de uma técnica consolidada, que permite a criação de moléculas sintéticas de forma precisa”, explica.

Um problema que virou oportunidade

A criação da empresa também foi motivada por uma dificuldade recorrente no meio acadêmico: a falta de oportunidades no mercado para profissionais altamente qualificados.
“Eu formava mestres e doutores, mas o mercado não absorvia esses profissionais. Isso me fez pensar em alternativas para mudar essa realidade”, conta Migliolo.
Foi dessa lacuna que surgiu a ideia de empreender.

O papel do Programa Centelha

A virada aconteceu com a entrada no Programa Centelha. Com os recursos recebidos, a Selkis conseguiu estruturar sua operação e iniciar a produção no estado.
Hoje, a empresa conta com infraestrutura completa, incluindo estoque de reagentes, resinas e aminoácidos, o que permite realizar todas as etapas do processo — da síntese à validação — com alto padrão de qualidade.
“O Centelha foi fundamental para nos impulsionar. Hoje conseguimos produzir peptídeos com autonomia e qualidade aqui mesmo no estado”, afirma o fundador.
Para o sócio Pedro Henrique de Oliveira Cardoso, o apoio foi decisivo para reduzir riscos no início da jornada.
“A subvenção trouxe segurança na transição da pesquisa para o mercado e fortaleceu a base científica do negócio”, destaca.

Ciência e estratégia lado a lado

Empreender dentro de um ambiente acadêmico exige equilíbrio entre rigor científico e visão de negócio. Na Selkis, esse desafio é enfrentado com uma equipe formada por pesquisadores em diferentes níveis.
A multidisciplinaridade se tornou um diferencial estratégico, permitindo decisões baseadas em evidências e maior capacidade de inovação.

Nova edição do programa

A terceira edição do programa, chamada Centelha 3, será lançada no dia 27 de março. O objetivo é apoiar ideias inovadoras ainda em fase inicial, especialmente nos momentos mais críticos de ideação e prototipagem.
A iniciativa é coordenada nacionalmente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Finep, o CNPq, o Confap e a Fundação CERTI.
Em Mato Grosso do Sul, a execução fica por conta da Fundect, ligada à Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc).

Investimentos e oportunidades

O edital prevê a seleção de até 47 projetos, dependendo do orçamento disponível.
Cada proposta poderá receber:
- até R$ 89,6 mil em subvenção econômica (sem necessidade de reembolso);
- até R$ 45,5 mil em bolsas de fomento do CNPq;
O investimento total estimado para esta edição é de R$ 6,3 milhões.
O programa é voltado tanto para pessoas físicas quanto para startups recém-criadas, com até 12 meses de existência.
Os participantes devem se inscrever como pessoa física e, caso sejam selecionados, precisarão abrir uma empresa com CNPJ no estado para acessar os recursos.
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Como participar

As inscrições estarão abertas entre 27 de março e 11 de maio de 2026, por meio da plataforma Sigfundect, disponível no site da Fundect.
Nas duas edições anteriores em Mato Grosso do Sul, o programa selecionou 79 startups, distribuindo mais de R$ 5,9 milhões em investimentos.
Ao todo, 809 ideias já foram submetidas — e a expectativa agora é alcançar mil projetos inscritos na nova edição.

Um ciclo que se fortalece

O caso da Selkis Biotech mostra que, com incentivo adequado, a ciência pode sair do papel e gerar impacto real.
Mais do que financiar ideias, o programa ajuda a construir um ciclo sustentável de inovação, conectando conhecimento, empreendedorismo e desenvolvimento econômico.