Visão lunar
Rafael Oliveira
| 12-05-2026

· Equipe de Astronomia
A missão Artemis II, da NASA, proporcionou um dos relatos mais impressionantes já feitos sobre a Lua.
Durante cerca de sete horas, os astronautas orbitaram o satélite natural a apenas 6,5 mil quilômetros de distância — uma proximidade que revelou detalhes nunca vistos diretamente por olhos humanos.
Da nave Orion, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen capturaram imagens raras e descreveram fenômenos surpreendentes, como o “pôr da Terra” e um eclipse solar prolongado observado do espaço profundo.
Uma Lua diferente do que imaginávamos
Ao contrário da aparência cinza uniforme comumente associada à Lua, os astronautas relataram cores inesperadas e texturas complexas na superfície lunar.
Tons esverdeados e marrons, além de padrões ondulados, foram observados principalmente no lado oculto — uma região mais antiga, acidentada e repleta de crateras. Esse cenário contrasta com o lado visível, marcado por grandes planícies escuras formadas por atividade vulcânica.
A observação direta trouxe uma nova dimensão à exploração lunar, permitindo identificar nuances que nem mesmo sondas avançadas conseguem captar com a mesma sensibilidade.
Terra e Lua no mesmo olhar
Em um momento raro, a tripulação conseguiu observar simultaneamente a Terra e a Lua do espaço profundo — uma perspectiva que reforça as diferenças entre os dois corpos celestes.
Apesar de missões como o Lunar Reconnaissance Orbiter já terem mapeado a Lua em alta resolução, o olhar humano ainda é insubstituível quando se trata de reconhecer padrões, contrastes e detalhes sutis.
A missão também entrou para a história ao levar humanos mais longe da Terra do que nunca. Em 6 de abril de 2026, a tripulação alcançou cerca de 406,7 mil quilômetros de distância, superando o recorde mantido desde 1970 pela Apollo 13.
O espetáculo do “pôr da Terra”
Uma das imagens mais marcantes foi o chamado “pôr da Terra”, quando o planeta desaparece lentamente atrás do horizonte lunar.
A cena lembra a icônica foto “Earthrise”, registrada pela Apollo 8 em 1968 — mas, desta vez, o movimento é inverso. A Terra aparece parcialmente iluminada antes de sumir por trás da superfície craterada da Lua.
Na imagem, é possível identificar nuvens sobre a Austrália e a Oceania, além da cratera Ohm em primeiro plano, com suas bordas em camadas e picos centrais.
Registrada no lado oculto da Lua, essa foi a primeira imagem pública da missão nessa região. “Essa é a vista mais linda que um ser humano pode jamais experimentar”, afirmou Wiseman.
A tripulação também capturou o “nascer da Terra”, com o planeta surgindo como um fino crescente iluminado no horizonte lunar.
Paisagens que lembram um “abajur”
Entre os alvos observados estava a Bacia Orientale, uma formação com cerca de 3,8 bilhões de anos e quase 965 quilômetros de diâmetro.
Conhecida como o “Grand Canyon” da Lua, ela impressiona por sua estrutura em anéis concêntricos, semelhante a um alvo. Foi a primeira vez que humanos observaram essa formação completa diretamente.
A simetria da cratera chamou atenção da equipe. Durante o voo, os astronautas também sugeriram nomes para duas novas crateras: “Integridade”, em referência à nave Orion, e “Carroll”, em homenagem à esposa falecida de Wiseman.
Ao cruzar o chamado terminador lunar — a linha que divide dia e noite —, a iluminação revelou sombras longas e dramáticas sobre crateras e montanhas, destacando o relevo com riqueza de detalhes.
A astronauta Christina Koch descreveu o brilho de pequenas crateras como se fossem objetos iluminados por dentro, comparando a cena a um “abajur com pequenos furos”.
Eclipse solar visto da Lua
Outro momento impressionante foi a observação de um eclipse solar sob uma perspectiva completamente diferente da Terra.
Do ponto de vista da tripulação, a Lua bloqueou o Sol por cerca de uma hora — muito mais do que os poucos minutos de um eclipse total visto do nosso planeta.
A coroa solar pôde ser observada com clareza, formando um halo brilhante ao redor do disco escuro da Lua. Durante a escuridão, estrelas e até o planeta Vênus se tornaram visíveis ao fundo.
Além disso, os astronautas testemunharam flashes causados por impactos de meteoros na superfície lunar — um fenômeno já registrado por instrumentos, mas visto em tempo real por humanos pela primeira vez.
“Foi uma sensação de leve vertigem”, relatou Wiseman ao descrever os clarões observados durante o eclipse.