Vírus estourados
João Cardoso
| 13-05-2026

· Equipe de Ciências
Ultrassom pode eliminar vírus sem prejudicar células
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que ondas de ultrassom de alta frequência — semelhantes às usadas em exames médicos, têm potencial para destruir vírus.
Como o SARS-CoV-2 e o H1N1 sem causar danos às células humanas. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostra que o fenômeno, conhecido como ressonância acústica.
Provoca mudanças estruturais nas partículas virais até que elas se rompam e sejam inativadas. Segundo os cientistas, o processo funciona de maneira curiosa: a energia das ondas sonoras altera a forma dos vírus até o ponto de ruptura. “É como se o vírus fosse combatido com som.
As partículas sofrem uma transformação tão intensa que acabam ‘explodindo’, de forma semelhante ao estouro de uma pipoca”, explica o coordenador da pesquisa, Odemir Martinez Bruno, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP). Com isso, o envelope — a camada que protege o vírus — se rompe, impedindo que ele invada células humanas.
Nova possibilidade no combate a doenças virais
Técnica abre caminho para tratamentos inovadores
A descoberta abre uma nova perspectiva para o tratamento de infecções virais, especialmente aquelas causadas por vírus envelopados.
A equipe já iniciou testes em laboratório contra doenças como dengue, chikungunya e zika. O avanço chama atenção porque o desenvolvimento de antivirais costuma ser complexo e demorado. Além disso, o método baseado em ultrassom apresenta vantagens importantes: não gera resíduos, não impacta o meio ambiente e não favorece o surgimento de resistência viral.
Embora ainda esteja longe de ser aplicado em pacientes, os pesquisadores consideram a estratégia promissora. “Trata-se de uma alternativa potencialmente mais limpa e eficaz em comparação aos antivirais tradicionais”, afirma Flávio Protásio Veras, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), que também participou do estudo.
Trabalho multidisciplinar e colaboração internacional
Equipe reuniu especialistas de diversas áreas
A pesquisa contou com a colaboração de cientistas de diferentes campos, incluindo física, virologia e farmacologia. Participaram especialistas de centros ligados à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), à Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFRP-USP) e à Unesp, que contribuíram com análises estruturais e testes toxicológicos.
O estudo também teve apoio internacional, com a participação do Nobel de Medicina de 2020, Charles Rice, da Universidade Rockefeller, que forneceu vírus fluorescentes usados para observação em tempo real.
A geometria explica o fenômeno
Formato do vírus é chave para o efeito
Um dos pontos mais surpreendentes da descoberta é que ela desafia conceitos clássicos da física. Em teoria, o comprimento de onda do ultrassom é muito maior que o tamanho dos vírus, o que dificultaria qualquer interação.
No entanto, os pesquisadores identificaram que o efeito depende da geometria das partículas virais. Vírus com formato esférico absorvem melhor a energia das ondas, acumulando vibrações internas que levam à ruptura do envelope.
Isso também explica por que mutações genéticas — como as observadas em variantes da COVID-19, como ômicron e delta — não comprometem a eficácia da técnica. O mecanismo depende da forma do vírus, e não de suas variações genéticas.
Frequência faz toda a diferença
Alta frequência garante ação seletiva
Os cientistas destacam que essa técnica não deve ser confundida com métodos já existentes de desinfecção por ultrassom. Hoje, o ultrassom é usado, por exemplo, na limpeza de instrumentos médicos por meio da cavitação — um processo que destrói indiscriminadamente materiais biológicos.
Já a ressonância acústica atua em frequências mais altas, entre 3 e 20 MHz, e funciona de forma muito mais específica. Nesse caso, a energia sonora se acopla diretamente à estrutura do vírus, gerando vibrações internas que levam à sua ruptura.
O mais importante: o processo não altera a temperatura nem o pH do ambiente, tornando-o seguro para as células humanas. Assim, apenas o vírus é afetado, o que torna a técnica seletiva e potencialmente aplicável em tratamentos futuros.
A base teórica desse fenômeno também foi detalhada em outro estudo publicado no Brazilian Journal of Physics, reforçando o potencial dessa abordagem inovadora no combate a doenças virais.