Reparo imune
Mariana Silva
Mariana Silva
| 13-05-2026
Equipe de Ciências · Equipe de Ciências
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) trouxe uma nova peça para o quebra-cabeça do sistema imunológico.
Publicada na revista Nature Communications, a pesquisa mostra como os linfócitos T — células essenciais na defesa do organismo — conseguem preservar seu material genético.
Reparo imune
Ainda que estejam sob intenso estresse oxidativo, condição que normalmente causa sérios danos ao DNA.
O destaque do estudo está na proteína XPC, conhecida por atuar no reparo do DNA, mas que agora também se mostrou fundamental para o desenvolvimento e funcionamento dessas células de defesa.
A descoberta amplia o entendimento sobre o sistema imunológico e pode impactar pesquisas em doenças autoimunes, infecções e câncer.

O papel das células Th17 na imunidade

Os cientistas focaram nos linfócitos T, que circulam constantemente pelo corpo em busca de ameaças. Quando identificam invasores, como vírus e bactérias, essas células entram em ação, se multiplicam rapidamente e se especializam para combater o problema.
Entre essas células estão as chamadas Th17, que desempenham um papel crucial na proteção contra bactérias e fungos, especialmente em regiões como intestino e pele.
Essas células produzem a proteína IL-17, responsável por estimular a inflamação — um processo essencial para eliminar infecções. No entanto, quando essa resposta sai do controle, pode causar danos.

Quando a defesa vira problema

Apesar de fundamentais, as células Th17 também podem contribuir para doenças. Isso acontece quando há produção excessiva ou desregulada de IL-17, levando a inflamações intensas.
Entre os problemas associados estão psoríase, diabetes tipo 1 e doenças inflamatórias intestinais, como colite ulcerativa e doença de Crohn.
Durante esse processo de defesa, essas células se multiplicam rapidamente e acabam expostas a altos níveis de estresse oxidativo, o que pode danificar o DNA.
Foi justamente aí que os pesquisadores identificaram o papel essencial da proteína XPC.

XPC: chave para o funcionamento das células

Segundo o estudo, as células Th17 utilizam a proteína XPC para reparar danos no DNA causados pelo estresse oxidativo.
Sem essa proteína, o cenário muda completamente: as células acumulam danos genéticos e perdem a capacidade de se tornar funcionais.
Na prática, isso mostra que o reparo do DNA não é apenas um mecanismo de proteção, mas também uma etapa essencial para que essas células cumpram sua função inflamatória no organismo.

Experimentos mostram impacto direto na inflamação

Em testes com camundongos, os resultados foram claros. Animais com o sistema de reparo de DNA funcionando normalmente desenvolveram colite, já que suas células Th17 estavam ativas.
Por outro lado, os que não possuíam a proteína XPC não apresentaram inflamação, justamente porque as células não conseguiam se desenvolver corretamente.
Outro ponto importante foi a mudança de comportamento dessas células na ausência da proteína. Elas passaram a se parecer com os linfócitos T reguladores (Treg), que têm função oposta: controlar e reduzir a inflamação.
Essa “flexibilidade” das células Th17 mostra como o sistema imunológico pode se adaptar dependendo das condições do organismo.

Ligação com doença genética rara

A proteína XPC já era conhecida por sua relação com o xeroderma pigmentoso, uma doença genética rara que aumenta drasticamente o risco de câncer de pele.
Pessoas com essa condição têm falhas no reparo do DNA, o que faz com que danos causados pela radiação solar se acumulem rapidamente.
O resultado é o surgimento precoce de tumores, muitas vezes ainda na infância, especialmente em áreas expostas ao sol, como o rosto.
Agora, o novo estudo sugere que os impactos da doença podem ir além da pele, afetando também o sistema imunológico.
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Imunidade comprometida e risco maior de câncer

Os pesquisadores indicam que pacientes com xeroderma pigmentoso podem ter maior vulnerabilidade a infecções, possivelmente devido ao mau funcionamento das células Th17.
Além disso, há um efeito duplo preocupante:
mais mutações no DNA e menor capacidade de defesa do organismo.
Esse cenário pode favorecer o surgimento e o crescimento de tumores, especialmente porque células com perfil regulador (Treg) tendem a reduzir a resposta do sistema imunológico contra o câncer.

Próximos passos da pesquisa

Com os resultados obtidos, os cientistas agora pretendem avançar para estudos em humanos. Um dos focos será investigar o sistema imunológico de pacientes com xeroderma pigmentoso — um campo ainda pouco explorado.
Outra frente promissora envolve o desenvolvimento de novas terapias.
A ideia é controlar ou inibir a proteína XPC de forma direcionada, especialmente em células Th17, para reduzir inflamações ou até reprogramar essas células para um perfil mais regulador.
Os pesquisadores também estudam o uso de terapias gênicas e abordagens autólogas, nas quais células são modificadas em laboratório e reintroduzidas no organismo.
Resultados iniciais em modelos animais já indicam potencial em doenças como a esclerose múltipla, reforçando o impacto da descoberta.
“Esse estudo abriu diversas possibilidades de pesquisa”, destacam os autores, que agora exploram novas aplicações em imunologia, câncer e até no desenvolvimento de vacinas.