Juros em Alerta
Pedro Santos
Pedro Santos
| 14-05-2026
Equipe de Ciências · Equipe de Ciências
Em uma semana decisiva para as políticas monetárias dos Estados Unidos e do Brasil.
O economista Thiago Ferreira, da Vanguard, resume o momento atual de forma direta: os bancos centrais enfrentam um dos cenários mais desafiadores possíveis — com menos espaço para cortar juros.
Juros em Alerta
Segundo ele, enquanto o conflito no Irã continuar pressionando os preços do petróleo, o impacto sobre a economia global tende a ser mais intenso e duradouro. Isso complica ainda mais as decisões de instituições como o Fed e o Banco Central do Brasil, que precisam equilibrar crescimento e controle da inflação.

Um cenário de difícil escolha

Na avaliação de Ferreira, o momento atual é marcado por um “trade-off” cada vez mais difícil. O aumento do preço do petróleo agrava esse dilema, pois eleva a inflação ao mesmo tempo em que pode desacelerar a atividade econômica.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação já vinha persistente, enquanto o mercado de trabalho dava sinais de desaceleração. Com o novo cenário, a combinação pode piorar: inflação mais alta com crescimento mais fraco.
Esse contexto eleva o chamado “juro neutro” — aquele que não estimula nem freia a economia — reduzindo a margem de manobra dos bancos centrais para cortar taxas sem perder o controle inflacionário.

IA muda o jogo

Além do cenário geopolítico, outro fator relevante entra na equação: a inteligência artificial. Durante painel no evento XP Global Conference, em Miami, Ferreira destacou que a tecnologia já começa a redesenhar a economia global.
A nova fase da IA pode impulsionar produtividade e crescimento, especialmente em empresas com alto nível de automação. Isso tende a reduzir custos e pressionar menos os preços.
Por outro lado, trata-se de uma tecnologia intensiva em capital, exigindo grandes investimentos — principalmente em infraestrutura como data centers — o que mantém a demanda por crédito elevada.

Impactos nos investimentos

Diante desse ambiente mais complexo, Ferreira sugere uma revisão nas estratégias de investimento.
Com juros mais elevados, a renda fixa volta a ganhar protagonismo, oferecendo retornos mais atrativos. Já o mercado de ações dos Estados Unidos é visto com cautela, considerado caro e sustentado por expectativas de lucro otimistas demais — o que aumenta o risco de correções.

Value vs Growth: mudança de ciclo pode favorecer ações mais baratas

Historicamente, momentos de inovação tecnológica favorecem ações de crescimento, conhecidas como “momentum”. No entanto, à medida que essas tecnologias se espalham pela economia, empresas com fundamentos sólidos e preços mais baixos — as chamadas ações de “value” — tendem a se destacar.
Esse movimento pode sinalizar uma mudança gradual de preferência no mercado.
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Mais espaço para o exterior

Outro ponto destacado é o potencial dos mercados fora dos Estados Unidos. Segundo Ferreira, ativos internacionais oferecem melhores oportunidades de diversificação e, em muitos casos, dividendos mais atrativos.
Já o dólar é visto como relativamente equilibrado, podendo oscilar conforme a produtividade americana e o avanço da diversificação global.

Uma nova proposta de portfólio

Diante desse cenário, Ferreira propõe uma mudança relevante na alocação tradicional de investimentos.
Em vez da clássica divisão de 60% em ações e 40% em renda fixa, ele sugere inverter a lógica: 40% em ações e 60% em títulos.
Dentro da parcela de renda variável, a recomendação é reduzir exposição aos Estados Unidos, aumentar investimentos internacionais e priorizar ações de “value”.
A proposta busca manter retornos semelhantes ao modelo tradicional, mas com menor nível de risco — uma adaptação às novas condições econômicas, marcadas por juros mais altos e transformações estruturais impulsionadas pela inteligência artificial.