Alerta Onça
Amanda Fernandes
Amanda Fernandes
| 18-05-2026
Equipe de Animais · Equipe de Animais
A sobrevivência da onça-pintada na Mata Atlântica está sob ameaça — e o problema pode estar mais embaixo na cadeia alimentar do que se imaginava.
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros aponta que a escassez de presas está diretamente ligada à redução da população do maior felino das Américas.
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Se esse cenário continuar, a espécie pode desaparecer completamente do bioma.

Falta de alimento preocupa especialistas

O levantamento identificou um quadro crítico: baixa quantidade e baixo peso total de animais que servem de alimento para a onça. Em diversas áreas analisadas, a média ficou abaixo de cinco indivíduos por espécie em cada ponto monitorado — um número insuficiente para sustentar um predador de grande porte ao longo do tempo.
A pesquisa foi coordenada pela professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, da Esalq-USP, e publicada na revista científica Global Ecology and Conservation. Para a pesquisadora, o fenômeno representa uma “extinção silenciosa das presas”.
Segundo ela, o risco é grave: a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo como a onça-pintada.

Como o estudo foi realizado

Os pesquisadores analisaram nove áreas protegidas da Mata Atlântica, incluindo parques nacionais, estaduais e áreas de proteção ambiental. Antes do trabalho de campo, revisaram estudos publicados entre 1983 e 2025 sobre a alimentação da espécie.
Com base em 719 amostras, foram identificados 36 itens alimentares. Desses, 14 espécies de mamíferos — como antas, pacas e porcos-do-mato — foram selecionadas como base da dieta do felino.
Para medir a presença desses animais, foram instaladas câmeras automáticas em 496 pontos, funcionando 24 horas por dia durante cerca de um mês em cada local. Os dados coletados permitiram estimar tanto a quantidade de indivíduos quanto a biomassa disponível.

Resultados alarmantes

Os números revelam um cenário preocupante. Em quase todas as áreas, há poucos animais disponíveis para alimentar as onças. Em muitos casos, a biomassa total ficou abaixo de 100 kg — valor considerado insuficiente para manter populações estáveis do predador.
O Parque Nacional do Iguaçu foi a exceção, com índices mais altos:
27,3 indivíduos em média e 638 kg de biomassa, além de concentrar a maior população de onças da Mata Atlântica.
Já em regiões com menor disponibilidade de presas, a presença do felino é rara ou inexistente, reforçando a relação direta entre alimento escasso e declínio da espécie.

Pressão humana agrava o problema

Outro ponto destacado pelo estudo é o impacto da ação humana. Áreas de fácil acesso apresentam menor quantidade de mamíferos de médio e grande porte, enquanto regiões mais isoladas concentram maior diversidade e biomassa.
A caça, aliada à falta de fiscalização e à ausência de alternativas econômicas para comunidades locais, aparece como um dos principais fatores por trás da redução das presas.

População cada vez menor

Embora o estudo não traga uma nova contagem, ele reúne estimativas recentes que mostram o tamanho do problema:
- cerca de 25 onças no Parque Nacional do Iguaçu;
- aproximadamente 93 indivíduos no Corredor Verde;
- menos de 50 na Serra do Mar;
- entre 4 e 8 em alguns parques estaduais;
- ausência de registros em determinadas áreas protegidas.
Esses números indicam populações pequenas, isoladas e vulneráveis.

Efeito em cadeia no ecossistema

A possível extinção da onça-pintada teria consequências amplas. Como predador de topo, ela regula o equilíbrio do ecossistema. Sem sua presença, populações de herbívoros podem crescer descontroladamente, afetando a vegetação e desencadeando impactos em cascata.
Isso pode levar à perda de biodiversidade, alterações no solo, aumento de espécies invasoras e até riscos à saúde humana, com a disseminação de patógenos.
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O que pode ser feito

Especialistas defendem que o primeiro passo é reforçar a fiscalização nas unidades de conservação e combater a caça ilegal. Também é fundamental melhorar a gestão dessas áreas, restaurar habitats e envolver comunidades locais nas estratégias de preservação.
Mais do que proteger a onça, o desafio é garantir a sobrevivência de todo o ecossistema que sustenta esse predador.

Um alerta urgente

A situação da onça-pintada na Mata Atlântica é um sinal claro de desequilíbrio ambiental. Sem ações efetivas, o desaparecimento desse símbolo da fauna brasileira pode deixar marcas profundas — não só na biodiversidade, mas em todo o funcionamento do ecossistema.