Sabor da Serra

· Equipe de Ciências
O tradicional Frescal de São Joaquim, um dos símbolos da culinária da Serra Catarinense, acaba de alcançar um reconhecimento importante no cenário nacional.
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao produto o registro de Indicação Geográfica (IG), na categoria Indicação de Procedência, oficializando a ligação entre a carne típica serrana e sua região de origem.
O reconhecimento foi concedido no dia 19 de maio de 2026 e coloca o Frescal entre os produtos brasileiros valorizados pela tradição, identidade cultural e características únicas do território onde são produzidos.
Trabalho coletivo garantiu reconhecimento
A conquista é resultado de um processo iniciado em 2024, com apoio técnico do Sebrae/SC. O trabalho envolveu a organização dos produtores locais, estudos técnicos, delimitação da área geográfica e a elaboração da documentação enviada ao INPI.
Além do Sebrae/SC, participaram da iniciativa a Faesc/Senar, o Sindicato Rural de São Joaquim e a Secretaria de Estado da Agricultura.
O Frescal já havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Santa Catarina, reforçando sua relevância histórica e gastronômica para a região serrana.
O que torna o Frescal tão especial
Muito presente na culinária da Serra Catarinense, o Frescal é produzido a partir de carne bovina submetida a um processo de salga, maturação e desidratação à sombra, sempre com controle de temperatura.
O método preserva características marcantes do produto, como a maciez, a textura suculenta e o sabor intenso.
A técnica atravessa gerações desde a época dos tropeiros, ainda no século 18, e se consolidou como uma das maiores referências gastronômicas da Serra Catarinense.
A área reconhecida pela Indicação Geográfica inclui exclusivamente o município de São Joaquim. O clima frio de altitude e o manejo tradicional do gado criado solto em campos nativos também influenciam diretamente no sabor e na qualidade da carne.
Valorização da tradição e da economia local
Segundo o vice-presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/SC, Antônio Marcos Pagani, a certificação fortalece o posicionamento da Serra Catarinense como referência em produtos ligados à origem e à tradição.
“A IG do Frescal agrega valor ao produto, amplia sua visibilidade e fortalece o turismo gastronômico da Serra Catarinense”, afirmou.
O pedido de registro foi encaminhado pela Cooperativa Carnes Nobres São Joaquim, a Coopernovilhos, responsável por representar os produtores durante o processo.
Para os pecuaristas da região, o reconhecimento já começa a refletir no mercado. O engenheiro agrônomo e produtor João Carlos de Souza Palma Junior, que atua há cerca de 45 anos na pecuária, afirma que a certificação deve aumentar ainda mais a procura pelo produto.
“Essa conquista fortalece toda a cadeia produtiva ligada ao Frescal. A tendência é de crescimento da demanda e ainda mais reconhecimento para quem produz com tradição e qualidade na Serra Catarinense”, destacou.
Santa Catarina amplia presença entre produtos certificados
Com o novo registro, o Frescal de São Joaquim passa a ser a 161ª Indicação Geográfica do Brasil e a 51ª da Região Sul.
A conquista reforça o protagonismo de Santa Catarina no setor de produtos reconhecidos por origem e qualidade. A Serra Catarinense já reúne outros importantes selos, como os Vinhos de Altitude de Santa Catarina, a Maçã Fuji da Região de São Joaquim, o Mel de Melato da Bracatinga e o Queijo Serrano dos Campos de Cima da Serra.
Origem ligada aos tropeiros
A história do Frescal começou no século 18, durante as viagens dos tropeiros que percorriam rotas entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, em São Paulo.
Na época, a salga da carne era uma alternativa para conservar o alimento durante as longas jornadas. Com o passar dos anos, os produtores da Serra Catarinense aperfeiçoaram a técnica até chegar ao produto conhecido atualmente.
O nome “Frescal” teria surgido há cerca de 50 anos, após um jornalista paulista experimentar a carne em São Joaquim e destacar sua textura mais macia e úmida em comparação ao charque tradicional.
Embora também seja uma carne salgada e desidratada, o Frescal possui diferenças importantes. Enquanto o charque passa por um processo longo de secagem, o Frescal tem maturação mais curta, em torno de 48 horas, o que ajuda a preservar sua suculência e sabor característico.