Geólogos em Perigo
Eduardo Lima
| 04-06-2026

· Equipe de Entretenimento
Na vida real, trabalhar como geólogo está longe de ser uma das profissões mais perigosas do mundo.
Dados dos Estados Unidos mostram que apenas cerca de um em cada 100 mil cientistas morre em decorrência da atividade profissional — índice abaixo da média geral da força de trabalho do país.
Mas nas telonas a história é bem diferente. Segundo um estudo publicado na revista Geology Today, geólogos do cinema enfrentam uma realidade muito mais mortal: cerca de 32% deles acabam morrendo ao longo das histórias. E os principais responsáveis por essas mortes incluem homicídios, desastres geológicos e até ataques alienígenas.
Pesquisa analisou mais de um século de filmes
Levantamento reuniu 141 produções lançadas entre 1919 e 2023
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que analisaram personagens geólogos em filmes britânicos e americanos lançados nos cinemas ao longo de mais de 100 anos.
A ideia nasceu de uma conversa informal durante uma pausa para o café. Inicialmente, os pesquisadores conseguiram lembrar de apenas uma dúzia de filmes com geólogos. Com o tempo, a curiosidade virou um projeto de pesquisa que reuniu 141 títulos e 202 personagens.
Para entrar na análise, os personagens precisavam ser geólogos de fato — paleontólogos, geofísicos e outros cientistas próximos da área ficaram de fora. Além disso, os profissionais precisavam aparecer em cena, vivos ou mortos.
O primeiro geólogo identificado pelos pesquisadores apareceu no filme Two Women, de 1919. Já a produção com mais personagens da profissão foi O Inferno de Dante, de 1997, que conta com sete geólogos na trama.
Heróis sobrevivem mais
Vilões da geologia quase sempre têm final trágico
O levantamento mostrou que a maioria dos geólogos retratados no cinema está do lado dos “mocinhos”. Cerca de 85% dos personagens são considerados pessoas boas ou, pelo menos, não cometem atos malignos diretamente.
Muitos deles também assumem papéis heroicos nas histórias — e isso parece aumentar as chances de sobrevivência. Entre os personagens heroicos, a taxa de mortalidade cai para 26%, abaixo da média geral registrada pelo estudo.
Já os vilões têm destino praticamente certo. Dos 30 geólogos malignos identificados pelos pesquisadores, 23 morrem ao longo das histórias. Um dos exemplos citados é o Professor Dent, antagonista de 007 Contra o Satânico Dr. No, de 1962, assassinado por James Bond.
Alienígenas e monstros estão na lista
Mortes absurdas ajudam a explicar estatísticas curiosas
A principal causa de morte entre os geólogos do cinema é o homicídio. Logo atrás aparecem, empatados, os riscos geológicos e os ataques alienígenas, com 12 mortes cada categoria.
As causas registradas pelos pesquisadores vão do dramático ao completamente absurdo. Entre elas estão “perdido na floresta”, “morto por caranguejo gigante”, “morto pela própria armadilha”, “devorado por alienígena” e até “morto por lagartos voadores extraterrestres”.
Um dos casos mais lembrados é o do geólogo de Prometheus, de 2012, que tem um fim violento após ser assimilado por alienígenas.
Profissão aparece mais em aventuras
Geólogos raramente são engraçados nos filmes
Os pesquisadores também identificaram padrões curiosos na forma como esses personagens são retratados. Segundo o estudo, geólogos quase nunca aparecem em papéis cômicos e estão cada vez mais ligados a histórias dramáticas.
Ainda assim, o gênero onde eles mais aparecem continua sendo o de aventura, com 47 filmes catalogados. Musicais, por outro lado, praticamente ignoram a profissão: apenas duas produções do levantamento contam com geólogos cantando ou dançando.
Os autores resumem a representação da profissão de forma bem-humorada: para o cinema, a geologia é uma atividade cheia de ação, perigos e acontecimentos dramáticos — mas com pouquíssimo espaço para humor ou música.
Falta diversidade nas telas
Maioria dos personagens ainda é formada por homens brancos
Além das curiosidades sobre mortalidade, o estudo também analisou questões de gênero e raça. Apesar de as mulheres representarem hoje 31,5% dos membros da Sociedade Geológica de Londres, elas aparecem em apenas 11% dos personagens geólogos do cinema.
Quando considerados apenas os filmes lançados após 1986, esse número sobe para 21,6%, indicando uma melhora lenta na representatividade feminina.
A diversidade racial é ainda menor. Entre os 202 personagens analisados, apenas seis não eram brancos: cinco homens negros e uma única mulher negra. Nenhuma outra etnia minoritária foi identificada pelos pesquisadores.
O primeiro geólogo negro encontrado no levantamento apareceu no filme O Caminho do Arco-Íris, de 1968.
Reflexo dos medos de cada época
Pesquisadores dizem que filmes mostram ansiedades da sociedade
Para os autores, os geólogos do cinema acabam funcionando como um retrato dos medos e preocupações de cada período histórico.
Segundo eles, as histórias acompanharam mudanças sociais ao longo das décadas: das antigas corridas por petróleo e minerais aos monstros nucleares, passando pelas conspirações dos conflitos políticos de 1947-1991 e pelos atuais filmes de desastres naturais.
Os pesquisadores acreditam que, nos próximos anos, as mudanças climáticas podem se tornar um tema ainda mais presente nas representações da profissão.
Um exemplo apontado pelo estudo é o filme A Cor que Caiu do Espaço, de 2019, estrelado por Nicolas Cage, no qual um hidrogeólogo testemunha a destruição completa da natureza ao seu redor.