Inovação em Alta
Larissa Rocha
| 08-06-2026

· Equipe de Ciências
As indústrias que dependem fortemente de patentes e marcas registradas estão desempenhando um papel decisivo no crescimento econômico da América Latina e do Caribe.
É o que revela um novo estudo elaborado em parceria entre a Organização Europeia de Patentes (OEP) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
Segundo a pesquisa, setores como os de automóveis, eletrônicos e produtos farmacêuticos respondem por 13,6% do Produto Interno Bruto (PIB) da manufatura regional e sustentam cerca de 1,6 milhão de postos de trabalho.
No Brasil, a participação é ainda mais expressiva: essas indústrias representam 16% do valor agregado da manufatura nacional e empregam mais de 750 mil pessoas.
Produtividade maior e salários mais altos
Além de sua relevância econômica, os setores intensivos em propriedade industrial apresentam desempenho superior em produtividade quando comparados a outros segmentos da economia. Como consequência, os trabalhadores dessas áreas recebem remunerações mais elevadas.
Em média, os salários são cerca de 30% maiores nessas indústrias. Já nos setores mais dependentes de patentes, os ganhos são ainda mais significativos, com produtividade 16% superior e remuneração acima de 50% em relação à média de outros segmentos.
O levantamento mostra que o Brasil segue como o principal centro de inovação da região. Entre 2016 e 2020, 45,6% de todos os pedidos de patente registrados nos países da América Latina e do Caribe foram depositados no país.
A liderança brasileira também aparece nos mercados de origem e destino das patentes. O estudo estima que aproximadamente 60% dos depósitos realizados na região estejam ligados ao Brasil, reforçando sua posição como principal polo de proteção de invenções latino-americanas.
Apesar desse protagonismo, os pesquisadores alertam para desafios estruturais que ainda limitam o aproveitamento pleno dos benefícios econômicos gerados pela inovação local.
ecossistema de inovação é fundamental
Para o presidente da OEP, António Campinos, a propriedade industrial é uma ferramenta importante para o desenvolvimento, mas seus resultados dependem da qualidade do ambiente de inovação.
Segundo ele, a região já dispõe de talentos qualificados e forte capacidade científica. No entanto, ainda é necessário ampliar as competências de comercialização, fortalecer a transferência de tecnologia e estreitar a colaboração entre universidades e empresas.
Políticas públicas eficientes e maior cooperação regional também são apontadas como fatores essenciais para transformar conhecimento em crescimento sustentável.
Na mesma linha, o secretário-executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs, defende que o debate sobre propriedade industrial seja integrado a estratégias mais amplas de desenvolvimento produtivo.
Para ele, a proteção da inovação deve ser vista como parte de um conjunto de políticas voltadas à redução das lacunas tecnológicas e ao fortalecimento das capacidades produtivas locais.
Embora os setores intensivos em patentes gerem alto valor econômico, grande parte desse valor continua associada a tecnologias desenvolvidas fora da região.
Os dados mostram que os fluxos de comércio e de patentes provenientes do exterior são muito superiores às trocas realizadas entre os próprios países latino-americanos e caribenhos. Como resultado, a região permanece como importadora líquida de tecnologia e de produtos protegidos por patentes.
Atualmente, essas indústrias representam apenas 9% das exportações regionais, mas respondem por 19% das importações. Desse total, 15% estão ligados exclusivamente a produtos baseados em tecnologias patenteadas.
patentes estrangeiras dominam a região
O desequilíbrio também aparece nos registros de propriedade intelectual. Mais de 85% dos pedidos de patente apresentados na América Latina e no Caribe têm origem em requerentes estrangeiros.
Ainda assim, o Brasil se destaca entre os países da região. Entre 2016 e 2020, inventores e empresas brasileiras registraram cerca de 22 mil pedidos de patente, o equivalente a 9% de todos os depósitos realizados no período e pouco mais de 60% dos pedidos feitos por requerentes latino-americanos e caribenhos.
O estudo aponta que existe um grande potencial de inovação ainda pouco explorado na região. Instituições públicas de pesquisa, incluindo universidades e laboratórios nacionais, foram responsáveis por 29% de todos os pedidos de patente entre 2016 e 2020.
Cerca de metade dessas solicitações está relacionada a setores manufatureiros intensivos em patentes, o que coloca essas instituições como fontes estratégicas de inovação para a indústria local.
criação e aproveitamento da inovação nem sempre caminham juntos
Os pesquisadores também identificaram uma diferença crescente entre o local onde as invenções são desenvolvidas e o local onde os benefícios econômicos acabam sendo apropriados.
Em 2020, a participação global das tecnologias criadas na América Latina e no Caribe foi quase 80% maior do que a participação das patentes efetivamente controladas por requerentes da própria região.
Esse fenômeno é especialmente evidente no setor de tecnologia da computação, onde muitas invenções originadas localmente pertencem a empresas estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos e da Europa.
A análise avaliou a atividade manufatureira de nove países da região: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, El Salvador, México, Peru e Uruguai.
A conclusão é que uma colaboração mais intensa entre empresas, universidades, centros de pesquisa e governos pode fortalecer a capacidade de inovação doméstica.
Além disso, ampliar a transferência de tecnologia e desenvolver parcerias entre os países da região são medidas consideradas essenciais para reduzir a dependência de tecnologias importadas e gerar mais valor a partir das invenções locais.