Legado do pezinho
João Cardoso
| 06-07-2026

· Equipe de Ciências
Enquanto celebra seus 100 anos de vida em junho de 2026, Jô Clemente também vê outro marco importante ganhar destaque: os 50 anos do teste do pezinho no Brasil.
Reconhecida por sua atuação em defesa dos direitos das pessoas com deficiência, ela foi uma das responsáveis por impulsionar uma iniciativa que transformou a detecção precoce de doenças e impactou milhões de famílias.
Uma vida dedicada à inclusão
Jô Clemente tornou-se referência na luta pelos direitos das pessoas com deficiência.
Ao longo de sua trajetória, Jô Clemente se destacou por mobilizar a sociedade em torno da inclusão social. Seu trabalho foi marcado pela criação de campanhas, ações de arrecadação e projetos voltados ao apoio de pessoas com deficiência intelectual e suas famílias.
Fundadora do Instituto Jô Clemente (IJC), que completa 65 anos de atuação, ela construiu ao lado do marido, o médico Antonio Clemente, um legado que ultrapassa a área da assistência social e alcança a saúde pública brasileira.
Como surgiu o teste do pezinho
O exame chegou ao país em 1976 e revolucionou o diagnóstico infantil.
A história do teste do pezinho no Brasil começou em 1976. A pedido de Antonio Clemente, o médico Benjamin Schmidt trouxe ao país o primeiro exame de triagem neonatal biológica.
Na época, muitas doenças genéticas e metabólicas raras só eram descobertas depois que os sintomas já haviam se manifestado. Em muitos casos, o diagnóstico chegava tarde, quando sequelas irreversíveis já estavam instaladas.
Com o apoio do Instituto Jô Clemente, o exame passou a ganhar espaço e importância, tornando-se uma ferramenta fundamental para identificar doenças antes mesmo do aparecimento dos primeiros sinais clínicos.
Movidos pelo compromisso com a ciência, a inclusão e a preservação da vida, os idealizadores ajudaram a consolidar uma cultura de prevenção que permanece até hoje.
Um exame que salva vidas
O diagnóstico precoce faz toda a diferença no tratamento.
Realizado preferencialmente entre 48 horas após o nascimento e o quinto dia de vida do bebê, o teste do pezinho recebe esse nome porque a coleta de sangue é feita no calcanhar da criança.
O procedimento permite identificar doenças raras de origem genética, metabólica, imunológica e infecciosa que podem comprometer o desenvolvimento e a qualidade de vida dos recém-nascidos.
Atualmente oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o exame tornou-se uma das principais ferramentas da política pública de triagem neonatal no país.
Credenciado pelo Ministério da Saúde como Serviço de Referência em Triagem Neonatal, o Instituto Jô Clemente já realizou testes em cerca de 19 milhões de brasileiros ao longo dessas cinco décadas.
Avanços e desafios da ampliação
Nova versão do exame ainda não chegou de forma igual a todo o país.
Com o avanço da ciência, o teste do pezinho também evoluiu. Hoje, existe a versão básica, disponibilizada pelo SUS, capaz de detectar sete doenças, e a versão ampliada, que permite rastrear mais de 50 condições.
A expansão da triagem neonatal foi prevista em lei em 2021 e representa um importante avanço para a saúde pública. No entanto, sua implementação ainda ocorre de forma limitada.
Atualmente, a versão ampliada está disponível em algumas iniciativas públicas específicas, como na cidade de São Paulo, em Minas Gerais e no Distrito Federal.
Diagnóstico ainda não chega a todos
Especialistas cobram um calendário nacional para ampliar o acesso.
Apesar dos avanços, a ampliação do exame ainda não foi implementada de maneira uniforme em todo o território nacional.
Isso significa que doenças incluídas nas fases mais avançadas da triagem, como a atrofia muscular espinhal, continuam sem rastreamento regular em diversas regiões do país.
A falta de um cronograma nacional definitivo preocupa especialistas e famílias, que aguardam a expansão efetiva do programa dentro do SUS.
Para muitos pacientes, o tempo é um fator decisivo. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de tratamento adequado e melhores resultados para a qualidade de vida.
Um legado que continua
Cinquenta anos depois, o teste do pezinho segue transformando vidas.
Ao completar meio século de existência, o teste do pezinho reafirma sua importância como uma das mais relevantes iniciativas de prevenção em saúde do país.
A trajetória de Jô Clemente e Antonio Clemente mostra como a união entre ciência, inclusão e compromisso social pode gerar impactos duradouros para toda a sociedade.
Cinco décadas depois de sua implantação, o exame continua carregando o mesmo propósito que inspirou seus pioneiros: garantir que cada criança tenha a oportunidade de receber diagnóstico, cuidado e tratamento no momento certo.