Visita à favela
Eduardo Lima
| 15-07-2026

· Equipe de Viagens
O significado da palavra favela e uma memória que ficou
A palavra favela pode ser definida como uma área pobre dentro ou próxima de uma cidade brasileira, formada por muitas casas pequenas construídas lado a lado e, muitas vezes, em condições precárias.
O termo também tem origem em uma planta resistente encontrada nos morros de Canudos, no Nordeste do Brasil.
Faz quase 17 anos desde que visitei uma favela pela primeira vez.
Com o passar do tempo, algumas lembranças ficaram menos intensas, mas três imagens continuam muito presentes na minha memória:
Tiros, fogos de artifício e ruas pelas quais fomos orientados a não passar.
Quando o turismo transforma comunidades em espetáculo
Para muitos mochileiros europeus, o conflito entre facções parece uma realidade distante. Muitas vezes, é vista como algo criado por Hollywood para entretenimento, e não como um problema social real.
Filmes como "Cidade de Deus", dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, deveriam provocar reflexão e preocupação. No entanto, para muitos viajantes que chegam ao Brasil, essas histórias acabam despertando curiosidade e até entusiasmo.
Foi exatamente essa visão que levou muitos turistas a fazerem passeios por favelas sem pensar duas vezes, caminhando pelas ruas como espectadores, acompanhados por guias que nem sempre pertenciam à comunidade e que frequentemente mostravam esses lugares pelo lado mais negativo possível.
Na minha primeira experiência, a sensação foi parecida com um "safári humano". As histórias contadas começavam e terminavam sempre relacionadas à violência, sem espaço para conexão humana, compreensão ou empatia.
Na época, eu era jovem demais para perceber o impacto que aquela visita rápida a um bairro que subia pelos morros tinha para as pessoas que realmente chamavam aquele lugar de casa.
Também não entendia que, ao financiar uma experiência baseada apenas em confirmar estereótipos negativos para visitantes estrangeiros, eu acabava contribuindo para manter um ciclo de preconceito.
A mudança na forma de enxergar o turismo
Em 2005, o conceito de turismo ético e responsável ainda não fazia parte da minha forma de viajar. Aos 21 anos, eu estava longe de compreender que minhas escolhas poderiam causar algum impacto.
Pesquisei pouco sobre o destino — algo ainda mais difícil naquela época — e não percebia totalmente que viajar deveria significar muito mais do que acumular histórias para contar e momentos para impressionar amigos e familiares.
Mesmo assim, aquela experiência na favela nunca pareceu completamente certa. Ao longo dos anos, voltei muitas vezes a pensar naquele momento e em como minha consciência sobre o impacto das viagens mudou.
Uma nova visita à favela Vidigal
Quando retornei ao Rio de Janeiro pela terceira vez, no final de 2018, no início de uma viagem de quatro meses pela América do Sul, tive a oportunidade de conhecer uma nova perspectiva.
A agência G Adventures nos convidou para participar de um novo passeio pela favela do Vidigal, organizado pela Favela Experience e apoiado pela Fundação Planeterra.
O objetivo desse pequeno projeto comunitário era apoiar moradores que buscavam criar novas oportunidades dentro da favela, envolvendo jovens e idosos, além de transformar o turismo local em uma atividade positiva liderada pela própria comunidade.
O ponto mais importante era permitir que os próprios moradores do Vidigal contassem suas histórias aos visitantes, livres dos preconceitos normalmente associados às pessoas que vivem nas favelas.
Russo: o guia que nasceu no Vidigal
Entre as pessoas responsáveis por apresentar essa nova visão estava Russo, nosso guia carismático, conhecido pelo apelido recebido ainda na infância por causa da pele clara.
Ele nasceu e sempre viveu no Vidigal. Foi justamente nos primeiros anos dos passeios turísticos pela favela que decidiu entrar no setor de turismo, mas com uma proposta diferente: fazer algo melhor para o próprio bairro.
"Eu vi pessoas fazendo passeios pela minha comunidade, pessoas que não eram daqui. Pensei que, se elas podiam fazer isso, eu também poderia."
E foi exatamente o que ele fez.
Durante anos, Russo passou a conduzir grupos pelas ruas da favela e se tornou uma das figuras mais conhecidas do local.
Em cada esquina, loja ou grupo de moradores por onde passávamos, alguém gritava seu nome. Não havia desconfiança sobre nossa presença. Pelo contrário: parecia existir satisfação em ver visitantes chegando para conhecer o Vidigal através de alguém que realmente fazia parte daquela comunidade.
Música como ferramenta de transformação
A primeira parada do passeio foi uma colorida quadra de futebol de concreto que também funciona como espaço de ensaio do grupo de percussão local Batuca Vidi.
O projeto é liderado por Izis, uma jovem admirável que enfrentou dificuldades e conseguiu se tornar uma liderança dentro da comunidade.
O objetivo do Batuca Vidi é usar a música como uma forma de ensinar disciplina, dedicação e organização para crianças e adolescentes locais que poderiam acabar sendo atraídos pelas gangues que ocupam o espaço deixado pela pobreza.
Assistimos às crianças tocando samba, algumas delas com dificuldade para carregar o próprio surdo pelo peso do instrumento.
A apresentação ainda contou com a participação inesperada do cachorro de rua que virou mascote do grupo, acompanhando tudo com alguns latidos no ritmo da música.
Alguns adolescentes, com pouco mais de 13 anos, observavam pela porta enquanto os integrantes ensinavam ao pequeno grupo de visitantes os primeiros passos na percussão.
A esperança era que ver jovens da própria comunidade ensinando algo positivo pudesse despertar curiosidade e incentivar outros moradores a participar.
O Vidigal além dos estereótipos
Continuamos a caminhada seguindo Russo, que compartilhava histórias da sua juventude e mostrava sua antiga casa e lugares importantes da sua vida.
A próxima parada foi o Vidigal Sitiê Eco Park, um jardim criado pela própria comunidade para a comunidade.
O espaço nasceu após a retirada de cinco toneladas de lixo acumulado no local. Até chegar ali, era difícil perceber o quanto havia pouca presença de áreas verdes na favela, dominada por tijolos vermelhos, concreto e estruturas metálicas.
O parque, apesar de simples, representava algo maior: a ideia de que o desenvolvimento de uma comunidade não depende apenas de construções e infraestrutura física, mas também de espaços de convivência e natureza.
Capoeira, cerveja artesanal e novas oportunidades
Descendo em direção à entrada da favela, visitamos o Vidigal Capoeira, uma organização comunitária criada oito anos antes.
O projeto ensina a famosa arte marcial de dança afro-brasileira, a capoeira, e mostra mais uma maneira pela qual o turismo feito de forma responsável pode gerar benefícios sociais e econômicos.
O passeio terminou na Vidigal Beer, uma microcervejaria administrada por Luciano e sua esposa Nilda, a primeira desse tipo dentro da favela.
Com apoio da Fundação Planeterra, a paixão do casal pela produção de cervejas artesanais se transformou em fonte de renda e em uma oportunidade real de futuro.
Foi também uma forma perfeita de encerrar a visita: tomando uma cerveja enquanto observávamos a vista impressionante da Praia de Ipanema e do restante do Rio de Janeiro.
Turismo responsável como caminho para mudanças
A realidade dos moradores do Vidigal e de muitas outras favelas do Rio pode ter mudado pouco desde aquela primeira visita ingênua feita 17 anos antes. Segundo diferentes estatísticas, em alguns aspectos, a situação chegou a piorar.
Não faz sentido romantizar ou minimizar as dificuldades enfrentadas por muitas pessoas dessas comunidades.
Também não se deve ignorar que problemas estruturais continuam presentes e que o turismo, sozinho, não pode resolver todas essas questões.
Nem todas as favelas do Rio terão necessariamente o mesmo caminho de transformação.
Mas a principal lição dessa visita, realizada em um dia nublado no Rio, foi perceber como o turismo responsável pode ter um impacto positivo quando apoia comunidades e pessoas que trabalham para criar mudanças, como Izis e Luciano.
A responsabilidade também é dos visitantes: ajudar a construir uma forma de viajar que respeite histórias, pessoas e lugares.