Polilaminina em dúvida
Gabriela Oliveira
Gabriela Oliveira
| 14-08-2026
Equipe de Ciências · Equipe de Ciências
O primeiro estudo em humanos sobre os efeitos da polilaminina foi publicado em uma revista científica após ter sido rejeitado por pelo menos três periódicos.
A nova versão passou pela avaliação formal de outros cientistas e apresenta mudanças em relação ao preprint, que era uma versão preliminar do trabalho ainda sem revisão por pares.
A publicação final corrige alguns problemas metodológicos apontados anteriormente e adota uma postura mais cautelosa sobre os resultados. Ainda assim, especialistas consultados pela VEJA SAÚDE identificaram fragilidades importantes no estudo e questionam até que ponto os dados permitem avaliar a eficácia da substância.

Conclusões mais cautelosas

Uma das principais mudanças está nos objetivos e nas conclusões da pesquisa. No preprint, o trabalho era apresentado como um estudo destinado a avaliar a segurança e a eficácia da polilaminina. Na versão publicada na revista Spinal Cord, os autores afirmam que a pesquisa não testa formalmente a segunda hipótese.
O farmacêutico Flávio Emery, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), explica que essa diferença é relevante. Segundo ele, o novo texto deixa claro que o objetivo é avaliar se a aplicação é viável e segura, reconhecendo que o desenho do estudo não permite tirar conclusões sobre sua eficácia.
Na versão preliminar, os pesquisadores afirmavam que os dados do teste-piloto sugeriam a eficácia da polilaminina no tratamento de lesões agudas da medula espinhal e mencionavam uma "melhora funcional notável" nos pacientes.
Agora, os autores adotam uma conclusão mais limitada. A mudança é considerada importante porque um estudo-piloto sem grupo de comparação, como este, pode ser utilizado para avaliar segurança, mas não é suficiente para demonstrar que uma substância é efetivamente eficaz.
A evolução neurológica ainda gera dúvidas
Apesar da mudança de tom, um pesquisador da área de neurociência e especialista em reabilitação de lesões da medula espinhal avalia que o artigo continua dando uma ênfase desproporcional à evolução neurológica dos pacientes. Segundo a avaliação apresentada à revista, essa abordagem pode criar uma impressão de eficácia que o próprio desenho da pesquisa não é capaz de confirmar.
Polilaminina em dúvida

A recuperação espontânea continua sendo uma questão

Outro ponto criticado pelos especialistas é a ausência, na versão inicial, de informações suficientes sobre o chamado "choque medular". Trata-se de uma espécie de interrupção temporária do funcionamento do sistema nervoso que pode ocorrer logo após um trauma.
Durante esse período, o paciente pode perder os movimentos imediatamente. A condição, porém, pode ser temporária e, conforme o choque passa, algumas funções podem retornar naturalmente ao longo de alguns dias. Sem excluir essa possibilidade antes da aplicação da polilaminina, torna-se difícil determinar se as melhoras observadas foram provocadas pela substância ou fazem parte da recuperação natural do organismo.
Além disso, segundo a análise apresentada no artigo, administrar o produto durante esse período poderia até agravar a condição dos participantes. O preprint não informava a utilização de métodos para garantir que os voluntários não estavam nessa situação.
Nova versão inclui testes
A versão publicada tenta preencher essa lacuna ao informar que foram realizados dois testes de reflexos, o bulbocavernoso e o sinal de Babinski. Segundo o novo texto, os resultados indicaram que nenhum dos pacientes apresentava choque medular no momento da aplicação da molécula.
Ainda assim, a fisioterapeuta Francielle Romanini, especialista em lesão medular, aponta outra questão dentro do próprio artigo aprovado. Segundo ela, alguns pacientes passaram por cirurgia de descompressão, procedimento utilizado para aliviar a pressão sobre a medula espinhal.
Isso mantém aberta a dúvida sobre a origem das melhoras observadas. Elas poderiam estar relacionadas à polilaminina, ao procedimento cirúrgico ou à própria evolução clínica dos pacientes.

O caso dos pacientes que morreram

O estudo envolveu oito pacientes com lesão medular completa tratados com polilaminina. Três morreram durante a pesquisa. Dois faleceram nos primeiros dias após o procedimento, em decorrência de complicações relacionadas ao trauma, enquanto o terceiro morreu durante o período de acompanhamento.
Esse terceiro paciente já havia passado pelas avaliações iniciais e apresentado melhora neurológica antes de morrer. Por isso, continuou incluído na análise dos resultados.
No preprint, a terceira morte aparecia no corpo do texto, mas não era considerada nas conclusões nem no resumo, que mencionavam apenas duas mortes. A versão preliminar também afirmava que, ao desconsiderar os dois pacientes que morreram pouco depois da admissão, seria possível dizer que 100% dos participantes haviam recuperado o controle motor.
Essa interpretação foi retirada da versão publicada. No novo texto, os autores mantiveram a conclusão de que seis dos oito participantes, ou 75%, apresentaram recuperação motora, embora apenas cinco tenham sobrevivido até o fim do acompanhamento.
Como os dados foram corrigidos
Flávio Emery observa que, diferentemente do preprint, no qual os pacientes mortos eram excluídos, a versão publicada passou a contabilizá-los no total, considerando também seus óbitos.
Outro erro corrigido envolvia um paciente que havia morrido, mas aparecia em um gráfico como se sua evolução clínica tivesse ocorrido aproximadamente 400 dias após o procedimento. Segundo a equipe responsável pelo estudo, tratava-se de um erro de digitação.
A taxa de recuperação de 75% também foi mantida e comparada pelos autores aos cerca de 15% descritos na literatura para casos semelhantes. Na versão publicada, porém, esse dado passou a ser apresentado de maneira mais cautelosa, dentro da discussão sobre segurança e viabilidade.

Três mortes também preocupam

Apesar das alterações, Emery chama atenção para o fato de que três dos oito pacientes morreram durante a pesquisa. Para o especialista, os dados apresentados não transmitem o nível de segurança necessário.
A questão é especialmente relevante porque a versão preliminar utilizava a taxa de recuperação como um dos principais argumentos a favor da eficácia da polilaminina. Na versão final, essa taxa aparece de maneira mais moderada, sem ser utilizada da mesma forma para sustentar a eficácia da substância.
Polilaminina em dúvida

Registro feito depois do início

Outro ponto levantado pelos especialistas envolve o registro do estudo. A pesquisa começou em dezembro de 2016, mas só foi registrada anos depois no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC).
Isso significa que o recrutamento dos participantes começou antes de o estudo ser registrado publicamente. Atualmente, essa é considerada uma prática inadequada em pesquisas clínicas, já que o registro antecipado aumenta a transparência e ajuda a evitar mudanças nos objetivos depois que os primeiros resultados aparecem.
Os autores justificam o registro retrospectivo afirmando que, naquela época, não existiam as mesmas exigências atuais para o registro prospectivo de ensaios clínicos. Romanini, porém, considera essa explicação pouco convincente. Segundo ela, o registro prospectivo já era utilizado desde 2004, e a ausência desse procedimento aumenta as preocupações sobre uma possível seleção dos resultados apresentados.

O que permanece sem comprovação

Para Emery, a versão publicada foi bem atualizada após passar pela revisão científica. Ainda assim, ele ressalta que não é possível afirmar, com base nesse estudo, que a polilaminina funciona.
Romanini também reconhece que os autores fizeram esforços para adequar o artigo e conseguir sua publicação, mas afirma que algumas limitações continuam importantes.
Entre elas estão a ausência de registro prospectivo, que já era praticado na época, a falta de avaliadores cegos e a inexistência de um grupo de controle. Na avaliação apresentada no artigo, essas características impedem que a pesquisa seja considerada adequada para comprovar a eficácia da substância.
Assim, embora a publicação final tenha corrigido problemas presentes no preprint e adotado conclusões mais cautelosas, os especialistas consideram que ainda existem limitações importantes. O estudo pode contribuir para a discussão sobre a segurança e a viabilidade da polilaminina, mas seus resultados não permitem, por si só, comprovar sua eficácia.