Cabo Verde surpreende
Isabela Costa
Isabela Costa
| 17-08-2026
Equipe de Viagens · Equipe de Viagens
Futebol, música e Carnaval estão entre as grandes paixões nacionais.
Além disso, o português é a língua oficial herdada dos colonizadores, enquanto a maior parte da população miscigenada tem origem em pessoas escravizadas trazidas do continente africano.
Poderia ser um retrato do Brasil, mas é, na verdade, a identidade de Cabo Verde, país que passou a ser ainda mais conhecido pelos brasileiros após sua recente participação de destaque na Copa do Mundo.

Uma chegada com clima familiar

Quem desembarca no aeroporto internacional da capital Praia, na ilha de Santiago, percebe rapidamente algumas semelhanças com o Brasil. No arquipélago formado por dez ilhas principais, isoladas no meio do oceano Atlântico, basta dizer que é brasileiro para ser recebido quase como alguém da família.
As afinidades culturais e sociais entre os dois países aparecem em diferentes momentos da viagem pelas ilhas. Durante um dos deslocamentos, o motorista alterna músicas da cantora cabo-verdiana Cesária Évora (1941-2011) com canções de Marisa Monte, enquanto a guia turística Nilza Aline Barros comenta o quanto gosta das novelas brasileiras.
“Somos nações irmãs”, afirma Nilza, que também revela cantar nas horas livres.
Cabo Verde surpreende

Praia e o bairro do Platô

Com aproximadamente 170 mil habitantes, Praia reúne cerca de um terço da população de Cabo Verde, estimada em 530 mil pessoas. A capital concentra construções históricas e ruas exclusivas para pedestres no bairro do Platô, localizado no alto de uma colina com vista para o mar.
Os calçadões de pedra portuguesa, cercados por sobrados, abrigam alguns hotéis, mercados públicos e museus. O cenário pode lembrar mais algumas cidades coloniais de Minas Gerais do que as movimentadas capitais de outras partes da África. A cerca de 15 quilômetros do centro histórico de Praia está Cidade Velha, local diretamente ligado às origens do arquipélago.

Onde a história começou

Depois de desembarcarem pela primeira vez, em 1460, nas terras vulcânicas e então desabitadas, os colonizadores da Coroa Portuguesa escolheram aquela região para estabelecer o primeiro povoamento europeu nos trópicos. A vila pesqueira era conhecida inicialmente como Ribeira Grande de Santiago.
Quatro anos depois, em 1466, Santiago entraria novamente para a história, desta vez por uma razão dolorosa. A ilha passou a abrigar o primeiro entreposto insular destinado ao tráfico de pessoas escravizadas de diferentes regiões da África continental para a América, com milhares delas enviadas ao Brasil.
O Pelourinho construído em 1520, em Cidade Velha, preserva parte dessa memória e atualmente integra a lista de Patrimônio Mundial da Unesco.

Cidade Velha

O crioulo cabo-verdiano

A maior ilha do arquipélago também se orgulha de ser considerada o berço da língua crioula cabo-verdiana, conhecida como “kriolu”. Em uma terra onde não havia povos originários, pessoas de diferentes etnias trazidas à força precisaram combinar seus idiomas com a língua dos colonizadores para conseguir se comunicar. O kriolu continua presente no cotidiano e é usado com mais frequência do que o português oficial.
O tráfico de pessoas escravizadas continuou até o século 19, enquanto Cabo Verde só conquistou sua independência de Portugal em 1975. Quase seis séculos depois de seu surgimento, o país insular sustenta sua economia principalmente no turismo e na prestação de serviços. O setor turístico responde por 25% do Produto Interno Bruto.
A identidade nacional também aparece nas manifestações de orgulho da população, como ocorreu nas comemorações da torcida durante a primeira participação de Cabo Verde em uma Copa do Mundo.
Cabo Verde surpreende

Um mercado com nome brasileiro

Apesar de estar a apenas 570 quilômetros do Senegal, o país africano continental mais próximo, Cabo Verde apresenta fortes identificações culturais com o Brasil, que fica a cerca de 3.000 quilômetros de distância.
Até o maior mercado popular do país, localizado na região aos pés da colina do Platô, na capital, recebeu o nome de Sucupira.
A denominação é uma homenagem à cidade fictícia da novela “O Bem-Amado”, escrita por Dias Gomes. Como ocorre em muitos mercados públicos brasileiros, é recomendável ficar atento aos pertences, especialmente ao celular e à carteira.

Música como identidade

Cabo Verde também chama atenção pela riqueza de sua miscigenação cultural expressa na música. O país não é conhecido por grandes safáris, leões ou extensas áreas de vida selvagem, mas possui uma forte tradição musical que se tornou uma das marcas de sua identidade.
Artistas contemporâneos com raízes familiares cabo-verdianas, como Mayra Andrade e Dino D'Santiago, valorizam e divulgam ritmos característicos do arquipélago.
Quem visita o país pode assistir a apresentações ao vivo de morna, coladeira, batuque e funaná em restaurantes dedicados à música. No bairro do Platô, em Praia, o Quintal da Música é um dos lugares onde essas manifestações podem ser apreciadas.
A combinação entre paisagens insulares, herança histórica, cultura própria e fortes vínculos afetivos com o Brasil faz de Cabo Verde um destino que vai muito além das praias. O arquipélago reúne marcas de diferentes povos e períodos históricos e transforma essa diversidade em uma identidade cultural própria, perceptível desde as ruas da capital até as apresentações musicais e os antigos locais de Cidade Velha.